Por Najar Tubino, da Carta Maior

Porto
Alegre (RS) - No início de agosto os plantadores de soja e milho no
Mato Grosso estavam revoltados com o prejuízo que a lagarta do cartucho
promoveu na safrinha. Uma saca do milho transgênico da Monsanto custa
R$450,00, enquanto a do convencional custa R$250,00, dizia um plantador
de Campo Verde, ao lado de Primavera do Leste.
“- Fiz quatro aplicações no milho convencional da área de refúgio e três no milho transgênico.”
O transgênico comprado já vem com o veneno contra a lagarta, ou seja,
compraram gato por lebre. Um dirigente da APROSOJA, a associação
representa a classe no maior estado produtor de grãos do país, também se
mostrava indignado, informava que a entidade entrou com uma ação de
questionamento contra quatro empresas produtoras de sementes – Monsanto,
Dupont, controladora da Pionner, Syngenta e Basf.
Esse é o resumo da ópera da disseminação pelo planeta de sementes
transgênicas, nos últimos 20 anos, contando pela experiência dos Estados
Unidos, país que lidera o plantio e também a venda desses produtos.
Em 2012, quase na mesma época 34 agricultores brasileiros, muitos do
Mato Grosso, ganharam um concurso da Monsanto chamado “OS ELEITOS”,
entre 500 concorrentes de todas as regiões do país. Eles foram os
pioneiros no plantio da nova semente da Monsanto – Intacta RR2 PRO -,
chamada de segunda geração, produzirá uma planta imune a dois tipos de
herbicidas e também aos insetos.
“- Fiquei impressionado com a quantidade e o cuidado com a pesquisa
para a resistência de pragas. Não imaginava que havia tanta tecnologia
por trás do processo de desenvolvimento”, disse Rafael Kummel, da
Fazenda Dr. Paulo, de Nova Mutum (MT), a 250 km de Cuiabá, onde marca o
início das lavouras na BR-163, corta a Amazônia ao meio em Santarém
(PA).
Carta ao Papa
No final de abril deste ano, um grupo de oito pesquisadores – Ana
Maria Primavesi, Andres Carrasco, Elena Alvares-Buylla, Pat Mooney,
Paulo Kageyama, Rubens Nodari, Vandana Shiva e Vanderley Pignati –
enviaram uma carta ao Papa Francisco tratando do assunto.
“- A transgenia é uma ameaça aos camponeses, à soberania alimentar, à
saúde e à biodiversidade no planeta. Ela reduz a produtividade, provoca
o aumento exponencial do uso de agrotóxicos. É um instrumento chave
para facilitara maior concentração corporativa da história da
alimentação e da agricultura. Seis empresas transnacionais controlam a
totalidade dos transgênicos semeados comercialmente. Como resultado do
avanço da industrialização da cadeia alimentar nas mãos das corporações
do agronegócio, aumentou o número de desnutridos e obesos, fenômeno que
agora é sinônimo de pobreza e não de riqueza. O sistema agroindustrial
produz 30% dos alimentos do mundo e usa 80% das terras e consome 70% da
água. A tecnologia transgênica é uma técnica inexata sobre a qual não se
tem controle de suas consequências”.
Fiz um resumo, porque além da carta os pesquisadores anexaram um
documento técnico que é um resumo sobre os acontecimentos nesta área nos
últimos 20 anos. Principalmente, pelo fato de tamanha mudança na
produção de alimentos seja cercada de todo tipo de barreira, para
discutir as fórmulas que as corporações usam para obter seus resultados.
E o que é pior: quando um pesquisador inicia uma pesquisa que desmente
tais resultados é logo execrado. Os pesquisadores também relataram o
caso da soja na Argentina, de onde saíram os grãos contrabandeados para o
Rio Grande do Sul, na implantação da transgenia no Brasil. São quatro
mil fundos especulativos que arrendaram terras e hoje participam na
produção de 55 milhões de toneladas de soja, o terceiro maior produtor
mundial – o primeiro é o Brasil com 81 milhões, o segundo Estados Unidos
com mais de 80 milhões. Ou seja, dos 267milhões de toneladas de soja
produzidas no mundo, os três países contribuem com 216 milhões.
“Admirável Mundo Novo” é um livro escrito pelo inglês Aldous Huxley,
neto do biólogo Thomas Huxley, parceiro de Charles Darwin, no lançamento
da Teoria da Evolução. Foi escrito em 1932, trata do avanço da
industrialização, é uma metáfora, e constrói um mundo futurístico, onde
as pessoas são divididas em castas desde o nascimento, andam de
helicóptero, tomam um comprimido para alcançar a felicidade, tratam do
corpo como um espetáculo e são cercados por uma tela metálica elétrica –
60 mil volts -, que os separam dos “selvagens”.
Pesquisando nos últimos dias sobre o tema da transgenia encontrei um
artigo numa revista do interior paulista onde falava do “Admirável Mundo
Transgênico”. Daí o título. Este é o primeiro fato. No início dos
debates, antes da liberação da transgenia no Brasil, no início dos anos
2000, era comum professores de universidades, pesquisadores das mais
variadas instituições defenderam a transgenia, como algo que mudaria a
vida dos habitantes do planeta. Sempre citando a segunda e, mais
recentemente, a terceira geração. Então tudo era possível: de frutas com
mais vitamina C, de grãos enriquecidos com diferentes vitaminas, até os
alimentos vacinas – “imagina uma criança comer uma banana e ficar
vacinada contra a poliomielite?”.
Qual é a realidade em 2014? A lagarta do cartucho comendo o milho
transgênico. E mais: a APROSOJA e seus associados ganharam da Monsanto
uma cobrança de royalties que eles pagaram a mais pela primeira semente,
porque a patente estava vencida. O Supremo Tribunal de Justiça julgou a
questão e mandou a Monsanto pagar R$215 milhões aos plantadores.
Resultado: a entidade fez um acordo com a corporação para descontar
R$18,50 durante quatro anos dos próximos royalties que eles pagarão pela
semente Intacta RR PRO, recém- lançada. Resumindo: eles pagavam R$26,00
por hectare pela primeira semente, e agora vão pagar R$96,50 – com o
desconto – pela segunda semente. Não é uma beleza?
Entretanto, a questão dos transgênicos na realidade é somente mais um
componente da atual situação da produção de alimentos industriais no
mundo. O domínio das corporações é total. Na comercialização e
exportação dos grãos apenas quatro empresas dominam 75% dos negócios –
Cargill, Louis Dreyfus, Bunge e ADM. O faturamento das quatro em 2013
passou de US$230 bilhões. A maior delas, a Cargill, alcançou US$136,7
bilhões, seguida pela Louis Dreyfus – a única da Europa – com US$66
bilhões, as outras duas, Bunge e ADM, na casa dos US$15 bilhões. A
questão não é somente soja, farelo e óleo, elas dominam os principais
grãos, mais cacau – caso da francesa Louis Dreyfus-, açúcar e todos os
derivados possíveis.
Proteína na salsicha
A Cargill tem a marca Innovatti e a Bunge, uma associação com a
Dupont, com a marca The Solae Company. Em resumo, elas produzem proteína
isolada de soja, que é utilizada na produção de suplementos
alimentares, alimentos funcionais, bebidas líquidas e em pó e barras de
cereais. A proteína concentrada é empregada na fabricação de salsichas,
mortadelas ou itens que levam carne moída. A lecitina de soja, outro
derivado, e encontrada em qualquer produto do mercado, de sorvete a
biscoitos, chocolates. Em 2013, a indústria de alimentação no Brasil
teve um faturamento de R$487 bilhões, sendo que 85% desses alimentos são
processados.
Sobre a Cargill, tem um adendo: há 14 anos, ela mantém no Brasil o
Banco Cargill S/A, com ativos de quase R$2 bilhões, e carteira em vários
segmentos: financiamento rural, câmbio, gerenciamento de riscos. É
corrente a história no Mato Grosso, que a maioria dos plantadores de
soja e milho está nas mãos das “tradings”, que financiam as lavouras,
adiantam dinheiro e insumo, em troca da safra futura. A pesquisadora
Emilia Jomalinis de Medeiros Silva, da UFRJ tem um trabalho sobre o
funcionamento das tradings no MT e o avanço da soja na BR-163. Ela cita a
safra 2005/2006 quando o financiamento chegou a R$30 bilhões.
Parceiras na dominação
O fato é que as corporações dominam o planeta de cabo a rabo. Na área
de sementes e agrotóxicos começaram a realizar pesquisas conjuntas,
para reduzir custos. Em 2013,
Monsanto e Basf lançaram um milho transgênico que eles dizem ser
“tolerante à seca”. É assim que é divulgado, como se fosse possível. A
boca pequena os executivos dizem que é “resistente a uma seca moderada”.
Lembrando que o lançamento sempre ocorre primeiro nos Estados Unidos,
onde o Meio-Oeste sofreu a maior seca dos últimos 50 anos. Bayer e
Syngenta se preparam para lançar uma semente de soja transgênica para a
América Latina em 2015. A Bayer só tem 0,5% desse mercado e quer chegar a
2%. A Pionner (Dupont) pagou quase dois bilhões de dólares para ter
acesso às sementes de segunda geração transgênica.
Integrados de luxo
Claro, todo esse movimento envolvendo a soja para vender aos
chineses, que em 2013 compraram 62 milhões de toneladas, para
transformar em ração para aves e suínos. Eles compram grãos, porque
Cargill, Bunge e ADM estão expandindo o esmagamento de soja na China,
construindo fábricas ou se associando com empresas locais, inclusive
estatais. A industrialização da soja na China saltou de 4% para 27%, na
Argentina foi de 9 para 16%, porque existem facilidades e menores custos
na exportação. No Brasil, o maior produtor, se manteve em 16%, e nos
Estados Unidos caiu de 37% para 21%. As corporações calculam que o
mercado de rações na China continue crescendo 5% ao ano.
Luiz Carlos Oliveira Lima, também da UFRJ, é o autor da pesquisa
“Sistema de Produção de Soja um Oligopólio Mundial”. Ele registra:
“- As empresas aumentam a escala de operações, aprofundando a
concentração e a centralização do capital na indústria da soja e
derivados, visando aumentar sua liderança no mundo global. O cluster de
empresas globais é caracterizado pela sua inserção no oligopólio mundial
de soja, integrando a atividade industrial com bancos corporativos e,
pelo investimento estratégico em aquisições e fusões, em produção, em
logística integrada e gestão do conhecimento. O cluster de empresas
globais adotou como mecanismo de coordenação a organização
multidivisional e em rede, integrando produtores de grãos de soja, que
foram incorporados como fornecedores de matérias-primas necessárias na
produção de óleo e farelo”.
Alimento de péssima qualidade
Ou seja, não são produtores, são tarefeiros de luxo, executam pacotes
tecnológicos que as corporações vendem. Não decidem nada, a não ser o
avanço na fronteira agrícola, porque o “mundo” precisa de soja. Nessa
estratégia avançaram na Amazônia, desde que a Cargill montou um terminal
em Santarém no início dos anos 2000. E o avanço vai aumentar, com a
transformação do distrito de Mirituba, no município de Itaituba (PA), em
estação de transbordo – os caminhões trazem a soja e o milho em
caminhões pela BR-163 e descarregam nos comboios de balsas, que
entregarão no terminal de Barcarena (PA). A Bunge investiu R$700 milhões
nessa operação, que já está funcionando. E ainda se associou com o
grupo do senador Blairo Maggi, criando a Navegação Unidas Tapajós Ltda.,
com aporte inicial de R$300 milhões.
Tudo isso para aumentar a oferta de carnes de aves, suínos, patos,
perus no mundo. Que são criados de uma forma “homogênea”, como definem
os manuais técnicos. São galpões de 126 metros de comprimento por 16
metros de largura e capacidade para 31.500 frangos. Para o bem-estar dos
frangos a União Avícola Brasileira preconiza 39 kg por metro quadrado.
Um frango é abatido aos 42 dias em média, com 2,3 kg. Significa que, ao
atingir dois quilos convivem 20 frangos por metro quadrado. Mais: eles
não são criados com hormônios, como se divulga popularmente. Não, as
corporações químicas descobriram que os antibióticos – vários de uso
para humanos – funcionam como “promotores de crescimento”, dando um
impulso de 10% e mais 10% na conversão alimentar, que é a medida de
quanto o frango come em ração e converte em carne.
Por sinal, recentemente a Comissão Técnica de Avicultura da Federação
da Agricultura do Paraná, estado maior produtor de frangos – 3,8
milhões de toneladas-, promoveu um debate entre os integrados, termo que
define os criadores de frangos, que são funcionários das empresas, sem a
estabilidade e os direitos trabalhistas. Eles reclamam dos contratos
“leoninos”, que são obrigados a cumprir. Eles ganham conforme a
eficiência na conversão alimentar dos frangos.
Tudo definido
pela empresa, que traz todo o pacote até a propriedade do integrado. Se o
frango não converte o que está no contrato, ou se os componentes da
ração – fabricada pela empresa – mudarem, e for impossível ter tal ganho
de peso, azar do integrado.
Este é o panorama do agronegócio mundial, que mais uma vez no Brasil,
se prepara para reforçar sua bancada no Congresso e implantar sua
plataforma política, e como bons integrados, tarefeiros das corporações,
cumprir as metas globais. O custo, o restante da população continuará
pagando: na saúde, pela destruição dos ecossistemas, pela contaminação
das águas, pela destruição de margens e nascentes de rios. Por comer um
alimento de péssima qualidade.
http://www.agroecologia.org.br/index.php/noticias/noticias-para-o-boletim/683-agronegocio-a-farsa-do-admiravel-mundo-novo