quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Não ter mais casa, carro, barco nem nada é o novo objetivo de Amyr Klink

 

Não ter mais casa, carro, barco nem nada é o novo objetivo de Amyr Klink

Jorge de Souza

23/10/2019 11h23 


Desde que atravessou o Atlântico remando um barquinho que mais parecia uma canoa, 35 anos atrás, Amyr Klink aprendeu que um dos grandes segredos da vida é ser eficiente – saber fazer as coisas acontecerem com o que se tem de recursos à mão. E não precisam ser muitos.

Em certos casos, como o famoso navegador e palestrante bastante requisitado passou a defender de tempos para cá, o ideal é não ter nada – nem casa, nem carro, nem barco, nem nenhum outro bem que gere despesa e exija tempo e energia para ser mantido, como ele garante que está começando a pôr em prática na sua própria vida.

"Hoje em dia, não faz sentido você ´ter` coisas que podem ser compartilhadas, como, por exemplo, automóvel e barco. O que você precisa ter é o benefício que ele oferece, ou seja, a mobilidade para ir de um lugar a outro, e não ser dono exclusivo do bem, arcando com todos os ônus disso", explica Amyr, que chegou a fazer faculdade de economia antes de passar a se dedicar a expedições no mar. "Os aplicativos de veículos são a melhor prova disso".

"Quero que o carro desapareça"

O tema é recorrente em todas as suas palestras mais recentes, porque aborda uma nova maneira de viver a vida. "Quando eu chego de carro na porta do lugar para onde queria ir, o que mais eu quero é que ele desapareça, porque isso irá me poupar de gastar tempo, dinheiro e energia procurando um lugar para estacionar", explica Amyr.

"Um automóvel ocupa cerca de 25 metros quadrados de espaço na garagem de uma casa. Neste mesmo espaço, daria para alguém morar. Não faz sentido possuir um carro próprio, a menos, claro, que você goste de automóveis". E decreta: "Não quero mais ter carro. Minhas filhas, que são da nova geração, também não. Estamos entrando na era da ´economia do compartilhamento`, o que é muito bom".

Comprar o uso. Não o bem

De tempos para cá, Amyr passou a aplicar este mesmo conceito também aos meios de transporte que fazem mais parte do seu dia a dia: os barcos.

Na marina que ele (ainda) possui, em Paraty, Amyr vem testemunhando um fenômeno interessante: "Cada vez tem mais gente querendo alugar um barco, em vez de comprá-lo", garante. "As pessoas mais sensatas não querem mais comprar um barco, porque sabem que terão pouco tempo para usá-lo. O que elas querem é comprar o ´uso de um barco´ nos períodos que podem usá-lo, o que sai, inclusive, muito mais barato", avalia.

E exemplifica: "90% dos clientes da minha marina não usam os seus barcos mais do que meia dúzia de vezes ao ano. Então, por que não alugar um nestas datas, em vez de comprá-los?", questiona Amyr, que hoje se vê mais como um "provedor de mobilidade náutica" do que um vendedor de vagas náuticas na sua marina.

"Na nova indústria do compartilhamento, uma pessoa se torna provedor das outras, e é assim que deve ser feito com quase tudo". O franchising, por exemplo, é o compartilhamento do conhecimento de determinada atividade com outros interessados nele", exemplifica.

"O compartilhamento de bens que você usa pouco é uma tendência no mundo inteiro. A ordem é, cada vez mais, alugar em vez de comprar. Não faz sentido possuir o que não se usa bastante, ou se gosta muito, só para ter o sentimento de pertencimento".

Uma casa custa duas

Amyr também tem defendido que não faz muito sentido investir um dinheirão para ter uma casa própria, que "custará outro tanto, igual ou até maior , para ser administrada e mantida depois", referindo-se à manutenção, despesas de conservação e impostos. "Você acaba 'comprando de novo' a mesma casa décadas depois", garante.

"Vale mais a pena alugar e deixar a gestão do bem para quem goste ou tenha tempo para fazer isso", explica sua teoria. "Eu não quero gastar meu tempo fazendo o que não gosto", diz Amyr.

Amyr também concluiu que será ´rico` no dia em que não tiver mais nada – nem carro, nem casa, nem barco, nem nada que consuma seu tempo gerindo e administrando um bem. "O que eu quero ter é mobilidade. Ter tempo para fazer o que me dá prazer, como viajar, navegar, velejar. Isso é o que conta para mim. Quando conseguir me livrar de tudo serei verdadeiramente rico", diz Amyr.

"O que eu quero realmente ter é mais experiências, não ficar acumulando bens que me impeçam de ter mobilidade ou de me dedicar ao que verdadeiramente gosto", diz Amyr, que garante ter aprendido isso também com os barcos. "Um barco ensina você a ser eficaz em tudo. Até no espaço, que é acanhado. Você aprende a não desperdiçar nada e se virar com o que tem. Se torna, portanto, uma pessoa eficiente".

Exemplo de eficiência

Um bom exemplo desta eficiência que Amyr tanto prega foi a marca de outro navegador do passado, o argentino Vito Dumas, que, quase 80 anos atrás, tornou-se o primeiro homem a dar a volta ao mundo velejando naquele que é considerado um dos piores trechos do planeta: os mares austrais, nos arredores da Antártica.

Mesmo sem ter os equipamentos necessários (nem bons casacos ele tinha para combater o frio, o que resolveu enchendo as roupas com jornais) e com total carência de víveres no barco (ele sequer levou água para beber), Dumas conseguiu o que parecia impossível, usando basicamente a eficiência na navegação, numa grande saga.

Fotos: Marina Bandeira, Tsuey Ian, Jorge de Souza, Katia Gardin e Alexandre Takashi/Divulgação

 

Histórias do Mar

 

https://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/10/23/nao-ter-mais-casa-carro-barco-nem-nada-e-o-novo-objetivo-de-amyr-klink/

A democracia, assim como a civilização, nunca está dada

 01/03/2020

“A democracia, assim como a civilização, nunca está dada
As leis dependem dos homens que as aplicam, é preciso defendê-las das forças contrárias
Visitei o bunker há oito anos, quando morei aqui pela primeira vez. Voltei agora, para acompanhar um amigo que veio passar uma semana de férias em Berlim. A guia das onze e meia é uma menina sabida na história do edifício: “Um bunker é feito para estar debaixo da terra. Então, por que este está na superfície, exposto? E por que tem cornijas e janelas renascentistas na fachada?”.
Ela explica que as janelas são falsas e que, como as cornijas no alto do prédio e a planta baixa inspirada numa obra-prima da arquitetura renascentista – a Villa Rotonda, desenhada por Andrea Palladio, nos arredores de Vicenza –, fazem parte do plano nacional-socialista de reconstruir Berlim à imagem de Roma, e de rebatizá-la Germânia.
A apropriação espúria de formas que na origem tinham a ver com valores humanistas serve de fachada para o pior dos mundos. Com paredes de dois metros de espessura e laje de cinco, o bunker foi construído com trabalho escravo, em 1942, para ser indestrutível, invencível, eterno. E se está visível, é porque é uma provocação.
Enquanto a guia explica os planos do nazismo para a eternidade, do outro lado do mundo dois homens discutem planos mais imediatos dentro de um carro.
“Não vou sair nem pelo caralho. Tá cheio de jornalista lá fora.”
“Vai ter que sair. Que fobia de jornalista é essa agora?”
“Fobia é a tua mãe! Que é que eu digo pra eles, porra?”
“Conta uma das suas. A claque de idiotas está aí pra rir.”
“E se me perguntarem...”
“A gente combinou: diz um absurdo qualquer, o maior absurdo de todos, uma coisa que obviamente não faça sentido. Segue a tática da provocação. Deu certo até agora. Continua invertendo o jogo, repete as acusações deles, a teu favor. Acusa teus inimigos dos crimes da tua família.”
“Não sei se você notou, mas o cerco está se fechando, eles estão chegando mais perto dos fatos.”
“Quantas vezes eu vou ter que repetir que não existe fato, cada um tem o seu?! E, de mais a mais, tem gente cuidando dos fatos pra você. Ou não tem? Você só precisa inventar mentiras sobre quem te acusa de mentiroso. Insinua e xinga. Acusa de criminoso quem descobre o teu crime. Deixa os caras exaustos. Põe isso na cabeça. Não sei quem foi o apressadinho que disse que mentira tem perna curta. É porque não sabia usar, não tinha método. Eles não te escolheram? Continua surfando no oportunismo deles. Tão topando tudo. Pra eles é melhor fingir que não veem. Agora abre a porta, vai lá e diz a maior merda de todas. Basta repetir o que te consagrou. O atestado de burrice é deles, não teu. Aproveita a tua hora. Arrasa!”
Nos corredores do bunker, a guia diz que a finalidade da fachada não é esconder, mas escancarar. O disfarce é só uma perversão. O bunker foi construído na superfície. Sua visibilidade é conspícua. Se está decorado com motivos renascentistas falsos, é para inverter os sinais. O bunker é uma provocação não só aos inimigos do regime mas também aos que o apoiam. Ele é a expressão arrogante da falência dos princípios humanistas, de valores como verdade, justiça, razão e honestidade; a retórica do combate à corrupção e ao mal transformada em veículo para a instalação da barbárie.
No meio do labirinto, a guia diz que o fascismo é um buraco negro onde já não existem ideias fora do lugar (nada é o que é, tudo se explica à força). E que não há fascismo sem autoengano. A democracia, assim como a civilização, nunca está dada. As leis dependem dos homens que as aplicam. É preciso defendê-las das forças contrárias, que estão sempre à espreita, são permanentes e representadas pelos próprios homens.
Antes de sairmos, ela arremata que, por ser a consagração da licença para matar no lugar da verdade, da justiça e da razão, o fascismo também é sempre uma forma de suicídio coletivo.
Uma semana depois, do outro lado do mundo, num almoço de família, dois jovens advogados ligados aos bancos e ao mercado financeiro – gente em princípio racional, formada nas melhores universidades americanas – rebatem o primo que acaba de voltar de Berlim e de um inverno com temperaturas de até 14 graus. Dizem que, a rigor, não se pode falar em aquecimento global.
É a primeira vez que dizem isso. Tentam convencê-lo de que é uma narrativa com motivos ideológicos. Porque admitir a parte do homem no aquecimento global seria como aceitar que eles próprios tivessem votado num projeto fascista de governo, o que é impossível. Eles riem, brindam e perguntam se o primo entendeu o tamanho do absurdo.
-
Bernardo Carvalho
Romancista, autor de "Nove Noites" e "Simpatia pelo Demônio".
 
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2020/03/a-democracia-assim-como-a-civilizacao-nunca-esta-dada.shtml
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